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ArteAzul-Atelier

 

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Partiu sem Luar

Partiu sem luar e a noite apagou-lhe o trilho.
Levava consigo retratos de tristes memórias,
Entrava num trem, não via ninguém, sentou-se à janela,
De  braços cruzados e olhos fechados, pintava uma tela
Com lindas flores de cravos amores, era o rosto dela.

A fome acordou-o e ele deixou o trem à noitinha.
A lua já esperava por ele, deitada ao longo da linha.
Ao raiar do dia, alguém lhe dizia:
- Bonjour monsieur! Il fait froid!
Era um menino lindo, filho do Padeiro de Condat...

Cheirava-lhe a pão, ao sol e ao chão ele prometia...
Deixar a idade nas ruas estreitinhas daquela cidade...
Num jardim com flores, numa ponte, num rio e num Pelourinho...
Numa igreja linda aberta para todos ao rés do caminho...

Mais tarde…

Regressou sem frio, sem medo, mas com tempestade.
Ao passar pelo rio encontrou a idade, saltaram pró mar
Numa onda gigante voou direito ao seu trilho.
Trazia nas asas o sol e pão para cada filho...

Partiu sem luar, mas a noite guardou-lhe o trilho.

(inédito de Abílio Bastos, 1970)

Nota: É um amigo meu, desde o momento que o conheci. Nasceu em Abadim - Cabeceiras de Basto e a sua história de vida é muito invulgar. Um destes dias fomos visitar uma exposição do Escultor Jorge Ulisses e o Abílio pegou numa das guitarras, obras-primas deste ilustre escultor, ajoelhou e cantou, pela primeira vez, este poema para mim. Lembrei-me da adufeira de Idanha-a-Velha que fez o mesmo na Guarda. Uma e outra de forma espontânea. O Abílio, em Agosto de 1969, partiu de Abadim a pé, com a saquita da roupa e uma côdea, até Vilar de Perdizes, onde o recebeu um passador da Gironda – Ourense, e o meteu no comboio em Ourense. O cansaço venceu-o e acordou na fronteira de Hendaye. Continuou no trem até Bordéus e chegou à «village» já noite. A cena do filho do padeiro, o regresso no ano a seguir e o salto até Nova Iorque onde, como sábio carpinteiro ganhou a vida e o pão para cada filho. Neste poema, com uma música de saudade, pretendo homenagear os nossos amigos emigrantes. Umas boas férias!

Livraria Académica

O Centenário

No «Centenário da Livraria Académica», que ocorreu na semana de 16 de Novembro último, apenas assisti à homenagem ao Nuno Canavez na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro do Porto no sábado (17) onde compareceram muitos amigos e familiares afastados, principalmente de Vale de Salgueiro. A festa iniciou-se com um almoço nesta Casa Regional seguida duma cerimónia bonita e sentida, sendo o ponto mais alto as palavras de agradecimento do Nuno Canavez e cuja parte mais emotiva e de grande realismo, com a humildade de um bom mirandelense de grande estatura profissional, moral e cívica, centra-se na figura do pai. O pai, com limitação física, não queria ver o Nuno «perdido na terra» e apontou-lhe a cidade do Porto. Com a 4.ª classe feita na aldeia, dia 23 de Outubro de 1948, calça os primeiros sapatos, veste o primeiro fato e anda de comboio pela primeira vez. O pai vai levá-lo e acaba por perder o comboio e o Nuno angustiado segue, em terceira classe, sozinho, até ao Porto. Ali, o chefe da estação vem ter com ele e manda-o sentar na estação, num banco de madeira e esperar pelo que iria chegar no comboio seguinte. No dia seguinte vê um anúncio no jornal a pedir um marçano para a Livraria Académica, apresenta-se e é seleccionado. Pensa que se deveu ao facto de ser o único do meio rural. O dono da Livraria, Guedes da Silva, natural de Lamego, trata-o quase como filho, facilita-lhe o estudo no curso comercial nocturno. Mas, o que ganha não chega para o quarto na pensão e comida e o pai vai-lhe enviando de Vale de Juncal cestos com comida. Por isso diz que «o meu pai foi tudo para mim»! Muito, ainda, fez por ele o dono da Livraria Académica, dando-lhe conselhos e ensinando-o a olhar para os livros como objectos importantes. Tal é o seu reconhecimento, que não se cansa de recordar Guedes da Silva, como fundador da Livraria Académica e seu mestre na arte de acarinhar os livros. É com orgulho que o nome de Guedes da Silva permanece, na sua livraria, em lugar de destaque, como se continuasse vivo. E continua na memória do grande Nuno Canavez. Parabéns pelos cem anos da sua Académica e por ser um livreiro de referência!

Douro

Património Mundial

À pendura fiz em meados de Agosto uma agradável incursão por terras da região duriense, onde ido dos lados de Amarante desci a Mesão Frio; e pela Rede e Caldas de Aregos dei comigo no Peso da Régua. Vila desde 1837, a Régua  foi elevada a cidade em 1985, e nessa altura  reconhecida também como Cidade Internacional da Vinha e do Vinho. Situada na margem direita do Douro, esta desenvolvida cidade do distrito de Vila Real é hoje um dos polos de atracção turística mais importantes da região em que está integrada.

Uma vez que a etapa a seguir tinha por fim chegar a Armamar, a decisão foi deixar a Régua e da outra banda do rio tomar a encantadora estrada que marginando o Douro aponta em direcção ao Pinhão, para no primeiro desvio com a indicação da capital da "maçã  de montanha" chegar ao destino.

Vila e sede de concelho do distrito de Viseu, Armamar é o município com mais quilómetros de fronteira com o leito do rio Douro. Além do vinho é também dos maiores produtores nacionais de maçã e esta representa uma das mais importantes fontes de rendimento da população local. O destino seguinte era São João da Pesqueira. Pela estrada que passa pelo lugar da Carrasqueira, onde se colhe uma encantadora panorâmica daquela zona vinhateira, desceu-se novamente à beira rio. Para de novo junto ao rio continuar para montante até que uma placa de sinalização apareça a indicar a "vila possuidora de um dos mais antigos forais, concedido por Fernando, o Magno". Estrada fora, a placa surge já perto do Pinhão; e Casais do Douro é a primeira aldeia que já na estrada de São João da Pesqueira nos aparece. Ali tive pena de não ter podido visitar o Eng. Arlindo Pinto e Cruz, um amigo de longa data, que em Mondim de Basto deixou saudades. Mas em trabalho não se brinca e quem me conduzia leva isso à risca.

Cerca das 12h30, uma boa hora para procurar almoço, estava  a entrar no centro da muito asseada e antiga vila São João da Pesqueira, que na região duriense também faz parte do distrito de Viseu. Pena tive de não poder visitar o seu famoso santuário de São Salvador do Mundo, situado a cerca de 5 km da vila, na estrada que de São João da Pesqueira segue em direcção à barragem do Cachão da Valeira. Ao não fazê-lo, perdi a oportunidade de ver um dos mais belos miradouros do Alto Douro, com vistas sedutoras sobre a zona da Valeira. 

Missão cumprida, agora havia que pensar no regresso a casa. Retomando, em sentido oposto, a mesma estrada de Casais do Douro, mais uma vez desci ao vale para ali, e já nas proximidades da foz do rio Torto, pela ponte de ferro sobre o rio Douro deixar terras da Beira Alta e pela vila do Pinhão entrar em Trás-os-Montes (Vila Real).

O Pinhão é uma povoação atravessada pelo rio que lhe dá o nome e que na margem direita do Douro tem a sua foz. O mesmo rio que reparte a ribeirinha localidade por dois concelhos: Alijo, da margem esquerda, e Sabrosa, da margem direita. O objectivo desta etapa  era  visitar a Zona Industrial de Constantim, e de não demorar demasiado tempo na viagem, dado os dias em Agosto já serem mais curtos e o percurso da jornada ainda longo. Vencida ali a tortuosa ladeira norte do rio Douro, deu tempo ainda para tomar um cafezinho na terra de Miguel Torga, Sabrosa, antes de chegar a Constantim. Aqui, após missão cumprida, foi o regresso a terras do Lis com um passeio indescritível feito pela região onde se produz o famoso vinho que com o nome de "O Porto" é comercializado, a região do Douro, Património Mundial!

Janeiro de chuva

riqueza no estio

Janeiro de chuva e frio vai dar riqueza no estio.

Com castanhas assadas e sardinhas salgadas não há ruim vinho.

Para pagar e morrer quanto mais tarde puder ser.

As Maias entre mitos e crenças

Prefácio

Jorge Lage apresenta-nos mais um livro de investigação etnográfica e histórica sobre um tema pouco conhecido, quase perdido pelos Portugueses.

Vamos dá-lo a conhecer, reabilitar, introduzir nas escolas, associações e Municípios. Chama-lhe «As Maias entre mitos e crenças»

Neste pormenorizado estudo das maias, o autor vai buscar as raízes mais antigas e profundas onde surgem e fazem parte da identidade cultural de povos europeus, e de uma forma particular na Galiza e em Trás-os-Montes.

Vai à mitologia grega, celta, eslava e romana investigar mitos e crenças, de divindades que o cristianismo transformou em rituais cristianizados.

São os meses de Maio e Junho e Dezembro que mais salientam as práticas embebidas de ligação ás forças  da natureza, mãe fecunda.

São as maias que recebem o nome do mês que as caracteriza e como que diviniza, atribuindo-lhes poderes e significados e efeitos próprios dos deuses.

Com as celebrações das Maias é a fecundidade da terra que surge em força, aroma e cor, após um longo Inverno, saindo de uma letargia profunda, para uma ressurreição festiva.

O autor, Jorge Lage, percorre a Europa ocidental e pesquisa todo o território nacional, onde as manifestações lúdicas, agrárias e religiosas se manisfestam nos começos de Maio.

Nós próprios temos assistido no Barroso à celebração dos primeiros dias de Maio e que entendemos deixar testemunho.

Em Barroso, por exemplo, é no primeiro de Maio que se enfeita o chibo maior da vezeira, com verdes e flores, para integrar a vezeira das cabras e ovelhas para começarem a roda, à vez.

É dia um de Maio, em Pitões e Tourém, que os pastores tocam as vacas e os cavalos à serra para ali pernoitarem livres e permanecerem até ao fim do Outono.

Em Vilar de Perdizes, dia primeiro de maio, comem-se em jejum três castanhas para não doer a cabeça todo o ano. Dia três enfeitam-se as cruzes que há pelos campos, com ramos e flores.

Em Cambezes do Rio, dia três de Maio, dia de Santa Cruz, limpam-se as cruzes gravadas nos penedos, a marcar os limites de cada uma.

O ramo para protecção dos campos, casas e animais é de sabugueiro, sendo posto dia 23 de Junho e não em Maio, por ainda não haver flores de giestas ou maias. Serão as Júnias de Pitões?

Em Soutelinho da Raia, concelho de Chaves, desfilam, á frente da procissão da festa do primeiro domingo de Junho, Adão e Eva vestidos de folhas de heras. Ele de sachola em movimento e ela fiando  linho e oferecendo a maçã a Adão.

Mas é na província de Ourense, em Verim, Laça e Ourense, que os Maios têm mais fama e raízes mais profundas, com desfile de carroças, engalanadas de verdes e flores, em concorrido concurso.

Maio é assim o mês da fecundidade da terra e da vida humana.

Em Barroso contam-se os meses da gestação imprevista e para justificar os nove de gestação, reinventam-se meses entre os meses. Abril, abrilete, e o mês que se lá mete? Maio, Miou, e o mês que passou? Junho, S. Joanás, e o mês em que nasce o rapaz?

Voltando à obra de Jorge Lage, mostra-nos outras facetas curiosas. A desconhecida gastronomia de Maio, os ditos exaustivos de Maio e o cancioneiro de Maio são complementos que enriquecem este livro, que recomendamos a todos, mormente escolas, associações culturais e autarquias, a fim de se preservar, reinventar, repor e dar continuidade a tradições seculares que ainda estão mergulhadas no subconsciente colectivo das gerações mais velhas e conservadoras.

Vilar de Perdizes, 24 de Junho de 2010

António Lourenço Fontes

in As Maias entre mitos e crenças