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A Toponímia também é Património

Soube pelo Boletim electrónico Municipal de Mirandela que estavam a «mexer» na toponímia do casco velho da cidade de Mirandela. Dar atenção à toponímia é de louvar. Contudo, muitas vezes mexe-se nos nomes das ruas deitando fora placas em perpianho e centenárias substituindo-as por um granito gaiteiro, lustroso e brilhante que não tem nada a ver com a zona histórica em que se enquadram. O gosto (ou mau gosto) com que se colocam placas toponímicas nos centros históricos é directamente proporcional ao empenho na sua preservação.

Não se pode (ou não se deve) ir a uma serração graniteira e mandar fazer tantas placas para um centro histórico duma aldeia, duma vila ou duma cidade, sem primeiro avaliar o que deve ser feito. Se estamos numa zona de mármore é desta rocha que devem ser feitas as placas; se estamos numa zona de pedra de lioz, será nesta que se deve lavrar o topónimo; se estamos numa zona de xisto ou granito serão destas rochas nobres que se devem fazer as placas toponímicas. Mas, num centro histórico, as placas não podem aparecer deslavadas, porque devem ter a mão de pedreiro artista no perpianho. Se assim não for, as placas em vez de se enquadrarem no espaço arquitectónico antigo são um enxerto enquistado que abona pouco em favor da cidade, de quem a gere e dos seus moradores.

Antes de se fazer uma intervenção urbana deve-se explicar aos moradores o que se pretende e se têm alguma sugestão a fazer. Isto, em parte, é ultrapassado quando existem um conselho cultural ou uma comissão de toponímia que dá o seu parecer ao município. Infelizmente, poucos são os municípios que têm estes órgãos consultivos (que são auxiliares de uma boa gestão do património) porque alguns se julgam como donos do saber e do poder. Afinal, o poder é efémero e quando dão por ela já passou ou são apeados por novos inquilinos, muitas vezes piores que os anteriores. Faço esta reflexão porque vejo o coração da minha mulher a sangrar sempre que os dois vamos a Chaves ou falamos de Chaves. O antigo Mercado Municipal de Chaves, uma estrutura em ferro trabalhado quase centenária, no coração da cidade, foi destruída para plantarem casario privado de betão e de mau gosto. O tal «dono» já partiu apenas com as quatro tábuas de pinho. Ficou a dor de um bem que se perdeu e que hoje podia ser uma atracção cultural e turística a gerar mais desenvolvimento para os flavienses.

Também, na remodelação profunda da Praça Nova de Mirandela não foi acautelado o seu valor histórico e patrimonial. Houve o bom senso de se deixarem algumas marcas, os portões a norte e uma amostra do rico gradeamento mural e pinhas de embelezamento, mas tudo o mais foi por água abaixo. Só a fachada da Escola Primária da Praça e a sua escadaria de acesso era digna de se admirar. Se o projecto de remodelação tivesse sido elaborado pela arquitecta municipal vimaranense que durante décadas preservou com mão de ferro ou de granito aquele centro histórico, seria bem diferente para muito melhor.

Hoje, Guimarães é património de valor cultural inestimável e patrimonial muito valorizado no presente. É assim, destruir o património urbanístico na ânsia de ganhar efémeros patacos «é cuidar que se ganha em se perder». Todos perdem. As gerações presentes e as futuras. Essa gente que só vê dinheiro à frente são uma espécie de «talibãs pelo dinheiro». No caso de Mirandela, espero que as placas toponímicas ajudem a valorizar o seu centro histórico.

Os Vinhos de Portugal

Castas autóctones

Nenhum outro país tem uma colecção de variedades castas autóctones como Portugal. Essa paleta enorme de castas surgiu em Portugal através de mutações da Vitis Silvestris na Peninsula Ibérica. Tartessos, Fenícios, Gregos, Romanos, etc… deixaram a sua marca na produção de vinho portuguesa. Séculos de isolamento evitaram depois trocas com outros países produtores de vinho, como Espanha e França. Por essa razão, os produtores portugueses focaram-se nos sabores finos que podem ser encontrados nas suas próprias variedades de uvas.

A variedade de castas únicas de primeira qualidade é impressionante: Touriga Nacional, Touriga Franca, Trincadeira, Tinta Roriz, Baga, Castelão, Alvarinho, Arinto, Alvarinho e muitas outras, responsáveis pelo carácter incomparável dos vinhos portugueses. Enquanto grande parte do mundo se concentra nas castas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, em Portugal, os amantes de vinho podem desfrutar um conjunto distintivo e impressionante de sabores diferentes. Portugal tem cerca de 250 castas autóctones, das quais apenas algumas viajaram (em pequena escala) para outro lugar do mundo.

Informação “Academia Vinhos de Portugal” Wines of Portugal

Um Não ou uma Lição de Vida

O episódio que vos vou contar passou-se no ano de 1971, enquanto prestava serviço militar no então BC 10 de Chaves. Um fim de tarde veio ao meu encontro o Adamir Dias, de Rebordelo, e sem mais delongas convida-me para o seu casamento com a Manuela (da Bota Grande).

Tínhamo-nos conhecido no RI 14, de Viseu, há mais de um ano, onde estive seis meses a preparar pelotões de soldados recrutas com destino ao Ultramar.

Até àquele momento a minha vida tinha sido de doze anos na aldeia natal, seis anos no Colégio dos Irmãos Maristas, nos Pousos – Leiria, dois ano de estudo em Vila Real, uma curta estadia em Lisboa na Universidade e dois anos de serviço militar.

Mas, ao convite Adamir que estava acompanhado da Manuela, sua noiva, digo não. Ele disfarça a tristeza interior, de não me ver na sua boda, com uma serenidade infinita como tem sido seu timbre ao longo da vida. E atira-me uma seta certeira à minha consciência, dizendo: - só vais perceber o que me estás a dizer quando um dia te casares e alguns dos teus convidados te disserem o mesmo.

Eu não tinha grande ligação ao Ademir e daí a minha resposta. Resposta que tem por trás um subconsciente que me faz fugir de tudo o que é desconhecido, ao ponto de sentir um constrangimento enorme se entro sozinho, até, num restaurante que desconheço. Num casamento ou num evento sem ter lá conhecidos entro quase em pânico.

Mais três nãos, para três convites de casamentos transformaram-se em quatro cruzes que arrasto pela vida fora e me agridem os tímpanos da silenciosa consciência.

Depois de me casar só faltei a convites intercontinentais porque os aviões gosto deles, quando os contemplo com os pés assentes na terra. Lá nas alturas fico em pânico sem saber como vou descer em caso de emergência.

Mesmo a baptizados não falto, tal como os casamentos, são momentos únicos de festa e alegria. Nos momentos de tristeza também procuro estar presente, só que, muitas vezes, as nefastas ou trágicas notícias chegam muito tarde. Talvez as minhas notas fúnebres sobre familiares, amigos e conhecidos que partem para sempre seja uma forma de sossegar a minha consciência ou de honrar a memória de quem parte, fazendo o choro ou o elogio numa pequena embelga de letras.

No ciclo do pão

No ciclo do pão - a acarreja

Já me referi uma vez ou outra às malhadas na minha aldeia por meados do século XX, sendo a parte final do retorno da semente e do cereal à tulha, que se iniciava com a sementeira em Outubro.

Depois do pão e trigo segados e permanecerem cerca de um mês na restrolha tinha início a acarreja.

Antes da acarrêja era naçairo deixar a eira barrida e essa tarefa era das mulheres. Depois do chefe de família dizer onde iam assentar as medas do trigo e do pão, o chão da eira era raspado das erbas e erbascos com a sacha e puxados os resíduos com o engaço para um canto. Depois, as mulheres da casa e algumas amigas, de abental na anca e lenço garrido apertado no cruto ou na nuca, empunhando as vassoura de cáximo, de gesta ou de couras e rascolhos limpavam o chão da eira, como se fosse um piso térreo de uma casa. Como se estivesse pronta a maior celebração em honra das deusas do trigo. O que iria entrar na tulha ditava um bom ou mau ano agrícola. Para mais viviam-se as grandes campanhas cerealíferas do Estado Novo.

A acarreja das pequenas casas de lavoura era feita com uns burrecos, machos ou beis pequenos e os carros levavam de dezena a dezena e meia de pousadas e quase não se faziam ouvir na poeirenta paisagem estival.

Mas, os agricultores remediados ou grandes encaravam a acarreja com respeito, que começava logo na revisão ao carro e ao apeiro dos animais. Era naçairo verificar as treitouras, o eixo, as cunhas, as cambas, a ferragem, as engarelas e os estadulhos. Os beis tinham que estar bem ferrados, os canelos cravejados, as molidas bem cheias e as sogas e o tamoeiro ensebados.

Era sempre trabalho para oito ou quinze dias a acarreja e nada podia falhar. Os animais tinham de estar bem tratados. O feno e o milho não podiam faltar e a cria tinha de estar sempre acomodada. Quando comia o lavrador e os ajudantes também comiam os bois era uma pausa de descanso e sagrada e sem pressas.

Geralmente, começava-se pelo centeio que já tinha muito mais pouso no borneiro e depois o trigo. O primeiro carro ia-se carregar às três ou quatro da madrugada, para se evitar o calor e ao romper da aurora tinha-se o mata-bicho. Pelas dez e meia almoçava-se e recolhia-se para a sesta de lavradores e animais. Quem teimasse em andar até mais tarde era recriminado pelos demais, porque o calor era extremo e os bois, de língua de fora, assavam, além de os moscardos os massacrarem impiedosamente. Pelas cinco horas da tarde, já jantados, ia-se buscar mais uma carrada.

À noite acomodava-se a cria e ceava-se ao pôr-do-sol porque o dia seguinte ia ser invariavelmente árduo.

Em tempo de acarreja as rodeiras, as canelhas e os caminhos eram trilhados com frequência. Carregar um bom carro de bois de cereal era uma obra de arte com os molhos a estenderem-se no sobrado e, à medida que ia subindo nas engarelas e estadulhos, a alargar para fora e a esticar para a frente e para trás. Os molhos espetavam-se nos estadulhos para fazerem a travação da carrada, obedecendo a uma técnica secular, como se erguesse uma torre de granito.

Quando os estadulhos estavam quase cobertos atravincavasse com uns laços ou cordas medianas e, por vezes com travincas. A parte final de carregar o carro ainda requeria mais cuidado, para que a carga não se esbarrondasse com os estreloucos, havendo molhos cruzados, em que uns travavam outros. A carga tinha que ser homogénea, encolhia um pouco, com mais carga à frente e os bois sempre postos ao carro. A parte superior do carro fazia lembrar uma rampa inclinada de lançamento uma obra perfeita, arrematada pela imponente corda carral. O apertar a corda carral era de um ritual invariável, com o lavrador e o paquete de músculos retesados e perna no ar apertavam até não haver milímetro de folga, ouvindo-se uns esganados: - oh!.. hum!...

A carga de uma boa junta de bois rondava as vinte pousadas, variando das dezasseis às trinta. Antes de carregar o lavrador tinha que avaliar o terreno onde ia carregar e o caminho a percorrer. No termo da minha aldeia as ladeiras de Vale de Freixinho, das Hortas, de Vale de Esgueife, da Orreta Longuinha, do Calvário, da Merigadeira ou do Arrebentão (que embicava na a ponte da Formigosa), eram de respeito e tinha-se que conhecer bem a força dos bois.

A descarga do cereal exigia mais uma ou duas pessoas. O ajudante descarregava o carro para a meda e uma ou duas pessoas chegavam os molhos ao lavrador que os assentava na meda, como se construísse uma fortaleza, sempre com os toros da palha para fora e as espigas para dentro. Enquanto se descarregava tiravam-se os bois do carro e comiam uma braçada de milho ou de feno. 

A azáfama e desassossego da aldeia, durante a acarreja, era grande e cada dona de casa estava atenta aos movimentos para ver se já tinham chegado os seus ou se teria havido alguma desgraça. Por exemplo, chimpar-se o carro com o cereal, partir-se o eixo ou deseneixar-se uma roda, algum animal afocinhar… Os perigos eram imensos e só a muita sabedoria e experiência do lavrador poderia evitar o pior.

Por vezes, a carga era demasiada para os animais e tinha que se retirar parte dela. O pior era quando era presenciada por outros labradores que os recriminavam de burrangas para cima, sendo alvo de chacota e troça. Também se ouvia que o lavrador tal, em vez de bois tinha dois gatos.

Mas havia lavradores tão vaidosos que recorriam a sabão para fazer chiar ou cantar o carro e às borras de azeite ou óleo queimado para que o eixo e as treitouras não se queimassem.

Às vezes, a dois ou três quilómetros já se ouvia o ããão…ãão e o iii…ãoão dos mais carregados ou o i…ií dos aligeirados e que queriam passar despercebidos.

O brio dos lavradores era imenso. Se fosse casado os erros eram desprestigiados até pelas mulheres da aldeia. Se fosse solteiro a mangação ainda era maior e até as moças casadoiras faziam troça do abrutado.

Por isso era preciso que lavrador e bois fossem um só e soubessem responder em conjunto num terreno pesado ou numa ladeira. Aí o lavrador, para além de incitar os bois, metia, com o paquete, ombro à traseira do carro e puxava com os animais, ao mesmo tempo que os afoutava e desferia alguma picadela nos quartos ou a trás das espadas. Quando a carga era grande para a alma e força dos bois havia sempre um ou outro que respondiam às picadelas com urros lancinantes que me varavam a alma. O remédio era chamar outra junta para a atrelar à frente, o que era uma humilhação, ou deixar parte da carga à beira do caminho.

Santo António

Santo António que foi Fernando

Fernando de seu nome baptismal, Santo António nasceu em Lisboa, cerca de 1195 e faleceu em Pádua, em 1231. Nunca o imaginei um santo "casamenteiro" e de bailaricos como o festejam nesta quadra antoniana. O seu nível intelectual não se prestava por certo a tais distracções populares.

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