NOTA ! Este sítio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes.

Se não alterar os parâmetros do seu navegador, está de acordo. Saber mais

Compreendo

ArteAzul-Atelier

 

Utilizamos cookies para personalizar conteúdo e anúncios, fornecer funcionalidades de redes sociais e analisar o nosso tráfego. Também partilhamos informações acerca da sua utilização do site com os nossos parceiros de redes sociais, publicidade e análise. Ver detalhes


Referências ao património, principalmente o das regiões de Trás-os-Montes e Alto Douro

A Toponímia também é Património

Soube pelo Boletim electrónico Municipal de Mirandela que estavam a «mexer» na toponímia do casco velho da cidade de Mirandela. Dar atenção à toponímia é de louvar. Contudo, muitas vezes mexe-se nos nomes das ruas deitando fora placas em perpianho e centenárias substituindo-as por um granito gaiteiro, lustroso e brilhante que não tem nada a ver com a zona histórica em que se enquadram. O gosto (ou mau gosto) com que se colocam placas toponímicas nos centros históricos é directamente proporcional ao empenho na sua preservação.

Mosteiro de Lorvão

Conheço mal, mas ficaram–me na retina as imagens paisagísticas que recolhi nas diversas vezes que passei por Penacova quando antes da barragens da Aguieira o melhor trajecto de quem ia de Lisboa para os lados de Vilar Formoso era o que passava pelo Porto da Raiva.

Património Monumental e Mundial

As cores da paisagem alto-duriense são únicas e acompanham a diversidade de micro-climas que contribuem na perfeição para a existência constante de uma paleta extraordinária de tonalidades e contrastes, projetando toda a expressividade artística num quadro natural - o Douro!

Património Monumental

Região de tesouros e jóias do património nacional, o Douro concentra em si ¼ de todo o património construído da Região Norte. 

Perto dos cursos de água dos seus afluentes ou na proximidade das suas margens, povos pré-históricos, romanos, mouros e cristãos edificaram capelas de origem bárbara, pontes, calçadas e castelos medievais, mosteiros cistercienses, igrejas de traça românica, renascentista ou barroca, casas senhoriais de brasão e nome em aldeias, vilas e cidades, hoje guardiãs de autênticos tesouros da sua história. Aqui cruzaram-se no passado os pergaminhos dos seus forais e as lendas da fundação da nacionalidade, como a cura milagrosa em Cárquere de D. Afonso Henriques, pai da pátria ou as narrativas romanceadas das Cortes de Lamego, na Igreja de Almacave.

Por todo o lado, solares, casas de quinta e testemunhos de povos errantes e de culturas diversas marcam de forma indelével a paisagem. São exemplos disso, a Igreja de S. Miguel de Armamar, a Igreja de Nossa Senhora da Natividade em Cinfães, a Igreja Matriz de S. João da Pesqueira, o Santuário de Nossa Senhora da Lapa em Sernancelhe, o Mosteiro de Nossa Senhora da Purificação em Moimenta da Beira, o antigo Convento de S. Pedro das Águias em Tabuaço, o Mosteiro de S. João de Tarouca e a visigótica Capela de S. Pedro de Balsemão, do século VII, em Lamego.

A herança medieval é também intensa e profunda. Castelos como o de Longroiva, Marialva e Penedono recordam a cada instante a importância estratégica que o Douro Sul sempre assumiu na história.

Património Mundial

Em Dezembro de 2001, a UNESCO elevou o Alto Douro Vinhateiro a Património da Humanidade. Um título, atribuído por unanimidade, que premiou a Região vinícola demarcada mais antiga do mundo, decretada pelo Marquês de Pombal, em 1756 - região única por reunir as virtudes do solo xistoso e da sua exposição solar privilegiada com as características ímpares do seu microclima em conjunto com o trabalho árduo do homem do Douro. 

A sua Paisagem evidencia três aspectos principais: o carácter único do território, a relação natural da cultura do vinho com a oliveira e a amendoeira e a diversidade da arquitetura local. Para além destes aspetos, a candidatura destacou o trabalho notável realizado pelo homem na construção de muros em xisto que prolongam as encostas e, sobretudo, a autenticidade e integridade da paisagem cultural.

A Região Demarcada do Douro, onde se produzem os vinhos correspondentes às denominações de origem “Porto” e “Douro”, abrange 250 mil hectares, dos quais 48 mil são ocupados por vinha, e dela fazem parte 22 municípios. No entanto, apenas 24 mil hectares, ou seja, um décimo dessa área, que engloba treze concelhos, foi classificado pela UNESCO como Património Mundial. Contudo, a zona classificada é representativa da diversidade do Douro, uma vez que inclui espaço do Baixo Corgo, do Cima Corgo e do Douro Superior. 

O território do Alto Douro Vinhateiro, área classificada, integra o vale do rio Douro, que já é considerado Património Mundial nos seus extremos, nomeadamente o Porto, e no lado oposto o Parque Arqueológico do Côa. Os treze concelhos que fazem parte da zona distinguida pela UNESCO são Alijó, Armamar, Carrazeda de Ansiães, Lamego, Mesão Frio, Peso da Régua, Sabrosa, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, Tabuaço, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa e Vila Real, estendendo-se ao longo das encostas do rio Douro e dos seus afluentes, Varosa, Corgo, Távora, Torto e Pinhão.

Monumentos em Vila Real

A Casa das Brocas é uma casa senhorial construída pelo avô de Camilo Castelo Branco. Tem na fachada uma lápide que evoca o escritor, mandada colocar pela Região de Turismo da Serra do Marão. Situa-se na Rua Camilo Castelo Branco, em Vila Real.

Bem próximo, na Avenida Carvalho Araújo, sala de visitas da cidade, encontra-se um edifício de traça medieval - a Casa de Diogo Cão - com construções contíguas da mesma feição arquitetónica. Nela terá nascido, segundo a tradição, o navegador português Diogo Cão, que descobriu a foz do Zaire, no séc. XV.

Na estrada que liga Vila Real à vila de Sabrosa, no lugar de Mateus, encontra-se a Casa de Mateus, do séc. XVIII, construção atribuída a Nicolau Nasoni, sendo um dos mais belos exemplares de arquitetura civil barroca em Portugal. Para além da atividade cultural que aí se desenvolve regularmente, a Casa acolhe um valioso acervo museológico que pode ser visitado. A capela e os jardins são também dignos de visita.

Título de Património Mundial da Unesco

Fisgas de Ermelo

O facto de se poder exibir o título de Património Mundial da UNESCO não basta para garantir a importância e valor dessa distinção se entretanto os seus zeladores não sabem ou não querem acarinhar o honroso merecimento. Estou a lembrar-me do Douro, onde sem terem em atenção a beleza das margens e arribas deixam que o leito do seu rio seja danificado com banheiras que travam a liberdade às águas e roubam encanto à paisagem natural.

Ou como vi na Ilha de Moçambique que sendo zona classificada o seu aspecto era duma cidade paupérrima e desprezada. O ver agora viva a intenção de propor as Fisgas de Ermelo a essa dignidade fez-me recordar o já há recuados anos a defesa desse sedutor e dantesco aspecto paisagístico que de forma admirável Mons. Ângelo Minhava enalteceu em “ A Cabrilada” e que do Marão é a pérola mais valiosa e da Península Ibérica a catarata ou fisga maior.

Solar que foi da águia real do Marão para defesa da sua permanência ali cheguei a pedir pessoalmente a intervenção do Eng. Pinto e Cruz, então presidente da Câmara e responsável do Perímetro Florestal do concelho, que procurou fazer por isso, mas já não era possível. As Fisgas estavam profanadas e as águias deixaram os ninhos vazios nas inacessíveis escarpas rochosas para nunca mais visitar. Dizem que vieram os falcões ocupar o seu lugar, nunca lá vi nenhum. Quem mo garantiu foi um médico de Fafe, que esteve ligado à criação do Parque.

Que esta pérola do Marão, orgulho do meu concelho, Mondim de Basto, seja considerada como tal, e a iniciativa do Eng. Humberto Cerqueira seja correspondida em benefício de toda a região de Basto e em particular dos habitantes desta transmontana serrania, por onde corre o Olo que molda, alimenta, atrai e seduz quem ali vive ou por ali passa. Mas não esquecer que o belo-horrível faz parte do cenário…

Magistral estudo sobre o Pelourinho de Montalegre

A revista Aquae Flaviae, na sua última edição (47) aborda cinco temas, cada qual o mais importante para a região. Isto para além da nota introdutória da Directora, Maria Isabel Viçoso, uma Barrosã que honra os seus conterrâneos e enriquece Chaves em todas as vertentes da cultura do último meio século. Como sócio fundador nº 5 desta publicação que respira ciência em todos os assuntos que aborda, orgulho-me muito de possuir as suas 47 edições e de poder louvar quantos, nos quase 30 anos que leva de existência, souberam confiar nos seus timoneiros: presidentes da Direcção do Grupo Cultural Aquae Flaviae, da direcção da revista e do seu conselho científico que manteve um nível cultural sempre elevado, coerente e fecundo, a fazer inveja a diversas que existiram e ainda existem, nos grandes centros urbanos, à sombra de prestigiadas Bibliotecas, Universidades, Institutos, associações, fundações e centenárias colectividades.

Quisera eu que me honro de ser o número cinco de associado – o que é muito gratificante para o quase nada que por ela fiz – dispor dos espaços jornalísticos de que já dispus nos 61 anos de militância jornalística, para elogiar cada número que vai saindo. E sobretudo deste que em 222 páginas insere verdadeiros nacos de cultura ressuscitada dos tempos idos.

Limitar-me-ei ao elogio rasgado ao arqueólogo de longo curso, Manuel José Carvalho Martins, pelas 35 páginas sobre o Mosteiro no Convento e pelas 77 páginas sobre a Chaves Romana – A Vila Romana XVII que forma um opúsculo notável e autónomo que, para os sócios constitui uma espécie de brinde suculento e delicioso. Do mesmo modo saúdo Alípio Martins Afonso e Maria Aline da Silva Ferreira Caetano, pelos trabalhos que ofereceram à revista e que muito esforço intelectual lhes mereceram.

Permitam-me os leitores que me debruce, essencialmente sobre o mais extenso estudo que João Soares Tavares, sendo Beirão de nascença e alfacinha de vivência permanente, revela um carinho muito grande por Montalegre. Se outras provas não tivesse dado ao longo de quase um quarto de século de dedicação quase exclusiva, bastaria a investigação que preparou para esta edição da revista Aquae Flaviae, sobre «o enigmático Pelourinho de Montalegre e a Terra de Barroso».  Essas  85 páginas de pesquisa apurada, equivalem a resmas de páginas de prosa corrida que sobre as Terras de Barroso, se têm multiplicado, a ritmo apressado e que, espremidas, não dão sumo para que o leitor mais ingénuo, refresque a garganta com um saibo que perdure alguns instantes. 

João Soares Tavares, ao invés, escreve apenas sínteses do muito e proveitoso que desbrava do passado de quem por aqui  nasceu e sobreviveu, legando-nos  um património histórico e simbólico para que tenhamos, hoje, raízes ancestrais dessa antropologia cultural que esborda e transborda, descobrindo-se em cada sulco do arado ou da enxada.

Os pelourinhos remontam à idade média e eram erguidos em lugares públicos, em forma de colunas em granito trabalhado, simbolizando o poder feudal ou religioso. Em torno do pelourinho se expunham os criminosos, se davam as leis e se reuniam as comunidades para tomar decisões. 

Nas suas visitas a Barroso o Dr. João Soares Tavares não só descobriu o lugar da Lapela (Cabril), onde João Cabrilho nasceu, sempre descobre inspiração para  abordar em artigos de imprensa e em livros de historiografia de enorme valia monográfica. Sobre Cabrilho ninguém até hoje foi capaz de tanto e tão seguro. Já realizou filmes sobre os caminhos do descobridor da Califórnia, já publicou dois ou três livros, já usou a imprensa local para, em diversos artigos relacionados com o povoamento da vila e do concelho, fornecer interessantes ângulos sobre a demografia e, agora, oferece à revista Aquae Flaviae um documento informativo que é do melhor que se conhece sobre Montalegre. Aquando da minha primeira visita a esta vila nos anos setenta do século passado, «avistei quase por acaso um monumento isolado numa extremidade da Praça do Município. Assemelhava-se a um pelourinho. Soube depois, pretende ser a réplica do pelourinho de Montalegre». Na altura escrevi artigos de opinião. Finalmente, muitos anos depois, chegou o dia da publicação». Começa por explicar o que são forais, pelourinhos e outros símbolos epigráficos. E conclui que aquele que ali se encontra presentemente «não é uma réplica do pelourinho original». É, antes, «o corolário de uma série de equívocos conforme demonstra entre a pagina 91 e 174». Com dezenas de fotos de boa qualidade e a cores, o notável investigador, em linguagem técnica mas clara  precisa e concisa fala desembaraçadamente, com uma dose de respeito e de simpatia por uma terra que conheceu e à qual tem dado muito do seu saber. Os barrosões devem-lhe muito. Em tudo do que entendeu falar, não teve papas na língua. Poucos barrosões, até hoje, fizeram tanto e tão bom. Sabemos que a Câmara lhe fez promessas que ainda não cumpriu. Quando ali apresentou, no Ecomuseu – Espaço Padre Fontes, o seu último livro sobre Cabrilho que a autarquia, louvavelmente patrocinou, foi-lhe prometido distribuir esse livro por todas as escolas do concelho. Até hoje não foi cumprido esse pedido. Nem lhe foi dada qualquer explicação. João Soares Tavares merece o aplauso de todos os Barrosões e serviços institucionais.

Lugar Sagrado e Património da Humanidade

Possivelmente  a linguagem e o pensamento evoluíram juntos, estimulando-se mutuamente. Percebemos as nossas aptidões e cedo gravámos a marca da nossa criatividade.

Foz Côa é, sem dúvida, um Lugar Sagrado e Património da Humanidade.

Estes afloramentos xistosos com representações religiosas e profanas possuem os mais raros e mais antigos testemunhos de um passado mágico. A sua necessidade e preocupação de preservar torna o Santuário de Gravuras Rupestres no maior museu de arte rupestre ao ar livre, num espaço de dimensão paradisíaca, lugar inatígivel, onde a felicidade eterna imperava.

Com realismo e transmitindo um certo movimento, estes cavalos, bois, cabras e peixes obedeciam a um objectivo ritualista. Podemos dizer, portanto, que as Gravuras Rupestres de Foz Côa são a mais bela manifestação de arte rupestre portuguesa.

Vila Nova de Foz Côa ergue-se nesta beleza paisagística, impressionando por essa gigantesca galeria de arte que o tempo não cristaliza. Visita-se com emoção, seduzindo e confirmando o prestígio antigo.

O estatuto de solenidade impõe inscrição na memória, com forte carácter impresso no xisto que atrai e faz pulsar o nosso coração. Este majestoso Templo é pleno de harmonia nas formas e proporções. São testemunhos de uma cultura e de um quotidiano que a inacessibilidade da localização exacta das gravuras não é impeditiva de maravilhar incontáveis gerações.

Este vasto conjunto de gravuras está inscrito em lajes de xisto que vale a pena percorrer. Diz-se, sem exagero, que visitar estes sítios embeleza e ilumina as nossas vidas. Aqui, a energia é poderosa. Felizmente, valores Superiores acabam por prevalecer.

in A Tartaruga Sonhadora

Os Vinhos de Portugal

Castas autóctones

Nenhum outro país tem uma colecção de variedades castas autóctones como Portugal. Essa paleta enorme de castas surgiu em Portugal através de mutações da Vitis Silvestris na Peninsula Ibérica. Tartessos, Fenícios, Gregos, Romanos, etc… deixaram a sua marca na produção de vinho portuguesa. Séculos de isolamento evitaram depois trocas com outros países produtores de vinho, como Espanha e França. Por essa razão, os produtores portugueses focaram-se nos sabores finos que podem ser encontrados nas suas próprias variedades de uvas.

A variedade de castas únicas de primeira qualidade é impressionante: Touriga Nacional, Touriga Franca, Trincadeira, Tinta Roriz, Baga, Castelão, Alvarinho, Arinto, Alvarinho e muitas outras, responsáveis pelo carácter incomparável dos vinhos portugueses. Enquanto grande parte do mundo se concentra nas castas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, em Portugal, os amantes de vinho podem desfrutar um conjunto distintivo e impressionante de sabores diferentes. Portugal tem cerca de 250 castas autóctones, das quais apenas algumas viajaram (em pequena escala) para outro lugar do mundo.

Informação “Academia Vinhos de Portugal” Wines of Portugal

Um Não ou uma Lição de Vida

O episódio que vos vou contar passou-se no ano de 1971, enquanto prestava serviço militar no então BC 10 de Chaves. Um fim de tarde veio ao meu encontro o Adamir Dias, de Rebordelo, e sem mais delongas convida-me para o seu casamento com a Manuela (da Bota Grande).

Tínhamo-nos conhecido no RI 14, de Viseu, há mais de um ano, onde estive seis meses a preparar pelotões de soldados recrutas com destino ao Ultramar.

Até àquele momento a minha vida tinha sido de doze anos na aldeia natal, seis anos no Colégio dos Irmãos Maristas, nos Pousos – Leiria, dois ano de estudo em Vila Real, uma curta estadia em Lisboa na Universidade e dois anos de serviço militar.

Mas, ao convite Adamir que estava acompanhado da Manuela, sua noiva, digo não. Ele disfarça a tristeza interior, de não me ver na sua boda, com uma serenidade infinita como tem sido seu timbre ao longo da vida. E atira-me uma seta certeira à minha consciência, dizendo: - só vais perceber o que me estás a dizer quando um dia te casares e alguns dos teus convidados te disserem o mesmo.

Eu não tinha grande ligação ao Ademir e daí a minha resposta. Resposta que tem por trás um subconsciente que me faz fugir de tudo o que é desconhecido, ao ponto de sentir um constrangimento enorme se entro sozinho, até, num restaurante que desconheço. Num casamento ou num evento sem ter lá conhecidos entro quase em pânico.

Mais três nãos, para três convites de casamentos transformaram-se em quatro cruzes que arrasto pela vida fora e me agridem os tímpanos da silenciosa consciência.

Depois de me casar só faltei a convites intercontinentais porque os aviões gosto deles, quando os contemplo com os pés assentes na terra. Lá nas alturas fico em pânico sem saber como vou descer em caso de emergência.

Mesmo a baptizados não falto, tal como os casamentos, são momentos únicos de festa e alegria. Nos momentos de tristeza também procuro estar presente, só que, muitas vezes, as nefastas ou trágicas notícias chegam muito tarde. Talvez as minhas notas fúnebres sobre familiares, amigos e conhecidos que partem para sempre seja uma forma de sossegar a minha consciência ou de honrar a memória de quem parte, fazendo o choro ou o elogio numa pequena embelga de letras.

No ciclo do pão

No ciclo do pão - a acarreja

Já me referi uma vez ou outra às malhadas na minha aldeia por meados do século XX, sendo a parte final do retorno da semente e do cereal à tulha, que se iniciava com a sementeira em Outubro.

Depois do pão e trigo segados e permanecerem cerca de um mês na restrolha tinha início a acarreja.

Antes da acarrêja era naçairo deixar a eira barrida e essa tarefa era das mulheres. Depois do chefe de família dizer onde iam assentar as medas do trigo e do pão, o chão da eira era raspado das erbas e erbascos com a sacha e puxados os resíduos com o engaço para um canto. Depois, as mulheres da casa e algumas amigas, de abental na anca e lenço garrido apertado no cruto ou na nuca, empunhando as vassoura de cáximo, de gesta ou de couras e rascolhos limpavam o chão da eira, como se fosse um piso térreo de uma casa. Como se estivesse pronta a maior celebração em honra das deusas do trigo. O que iria entrar na tulha ditava um bom ou mau ano agrícola. Para mais viviam-se as grandes campanhas cerealíferas do Estado Novo.

A acarreja das pequenas casas de lavoura era feita com uns burrecos, machos ou beis pequenos e os carros levavam de dezena a dezena e meia de pousadas e quase não se faziam ouvir na poeirenta paisagem estival.

Mas, os agricultores remediados ou grandes encaravam a acarreja com respeito, que começava logo na revisão ao carro e ao apeiro dos animais. Era naçairo verificar as treitouras, o eixo, as cunhas, as cambas, a ferragem, as engarelas e os estadulhos. Os beis tinham que estar bem ferrados, os canelos cravejados, as molidas bem cheias e as sogas e o tamoeiro ensebados.

Era sempre trabalho para oito ou quinze dias a acarreja e nada podia falhar. Os animais tinham de estar bem tratados. O feno e o milho não podiam faltar e a cria tinha de estar sempre acomodada. Quando comia o lavrador e os ajudantes também comiam os bois era uma pausa de descanso e sagrada e sem pressas.

Geralmente, começava-se pelo centeio que já tinha muito mais pouso no borneiro e depois o trigo. O primeiro carro ia-se carregar às três ou quatro da madrugada, para se evitar o calor e ao romper da aurora tinha-se o mata-bicho. Pelas dez e meia almoçava-se e recolhia-se para a sesta de lavradores e animais. Quem teimasse em andar até mais tarde era recriminado pelos demais, porque o calor era extremo e os bois, de língua de fora, assavam, além de os moscardos os massacrarem impiedosamente. Pelas cinco horas da tarde, já jantados, ia-se buscar mais uma carrada.

À noite acomodava-se a cria e ceava-se ao pôr-do-sol porque o dia seguinte ia ser invariavelmente árduo.

Em tempo de acarreja as rodeiras, as canelhas e os caminhos eram trilhados com frequência. Carregar um bom carro de bois de cereal era uma obra de arte com os molhos a estenderem-se no sobrado e, à medida que ia subindo nas engarelas e estadulhos, a alargar para fora e a esticar para a frente e para trás. Os molhos espetavam-se nos estadulhos para fazerem a travação da carrada, obedecendo a uma técnica secular, como se erguesse uma torre de granito.

Quando os estadulhos estavam quase cobertos atravincavasse com uns laços ou cordas medianas e, por vezes com travincas. A parte final de carregar o carro ainda requeria mais cuidado, para que a carga não se esbarrondasse com os estreloucos, havendo molhos cruzados, em que uns travavam outros. A carga tinha que ser homogénea, encolhia um pouco, com mais carga à frente e os bois sempre postos ao carro. A parte superior do carro fazia lembrar uma rampa inclinada de lançamento uma obra perfeita, arrematada pela imponente corda carral. O apertar a corda carral era de um ritual invariável, com o lavrador e o paquete de músculos retesados e perna no ar apertavam até não haver milímetro de folga, ouvindo-se uns esganados: - oh!.. hum!...

A carga de uma boa junta de bois rondava as vinte pousadas, variando das dezasseis às trinta. Antes de carregar o lavrador tinha que avaliar o terreno onde ia carregar e o caminho a percorrer. No termo da minha aldeia as ladeiras de Vale de Freixinho, das Hortas, de Vale de Esgueife, da Orreta Longuinha, do Calvário, da Merigadeira ou do Arrebentão (que embicava na a ponte da Formigosa), eram de respeito e tinha-se que conhecer bem a força dos bois.

A descarga do cereal exigia mais uma ou duas pessoas. O ajudante descarregava o carro para a meda e uma ou duas pessoas chegavam os molhos ao lavrador que os assentava na meda, como se construísse uma fortaleza, sempre com os toros da palha para fora e as espigas para dentro. Enquanto se descarregava tiravam-se os bois do carro e comiam uma braçada de milho ou de feno. 

A azáfama e desassossego da aldeia, durante a acarreja, era grande e cada dona de casa estava atenta aos movimentos para ver se já tinham chegado os seus ou se teria havido alguma desgraça. Por exemplo, chimpar-se o carro com o cereal, partir-se o eixo ou deseneixar-se uma roda, algum animal afocinhar… Os perigos eram imensos e só a muita sabedoria e experiência do lavrador poderia evitar o pior.

Por vezes, a carga era demasiada para os animais e tinha que se retirar parte dela. O pior era quando era presenciada por outros labradores que os recriminavam de burrangas para cima, sendo alvo de chacota e troça. Também se ouvia que o lavrador tal, em vez de bois tinha dois gatos.

Mas havia lavradores tão vaidosos que recorriam a sabão para fazer chiar ou cantar o carro e às borras de azeite ou óleo queimado para que o eixo e as treitouras não se queimassem.

Às vezes, a dois ou três quilómetros já se ouvia o ããão…ãão e o iii…ãoão dos mais carregados ou o i…ií dos aligeirados e que queriam passar despercebidos.

O brio dos lavradores era imenso. Se fosse casado os erros eram desprestigiados até pelas mulheres da aldeia. Se fosse solteiro a mangação ainda era maior e até as moças casadoiras faziam troça do abrutado.

Por isso era preciso que lavrador e bois fossem um só e soubessem responder em conjunto num terreno pesado ou numa ladeira. Aí o lavrador, para além de incitar os bois, metia, com o paquete, ombro à traseira do carro e puxava com os animais, ao mesmo tempo que os afoutava e desferia alguma picadela nos quartos ou a trás das espadas. Quando a carga era grande para a alma e força dos bois havia sempre um ou outro que respondiam às picadelas com urros lancinantes que me varavam a alma. O remédio era chamar outra junta para a atrelar à frente, o que era uma humilhação, ou deixar parte da carga à beira do caminho.

Santo António

Santo António que foi Fernando

Fernando de seu nome baptismal, Santo António nasceu em Lisboa, cerca de 1195 e faleceu em Pádua, em 1231. Nunca o imaginei um santo "casamenteiro" e de bailaricos como o festejam nesta quadra antoniana. O seu nível intelectual não se prestava por certo a tais distracções populares.

Ler mais...