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ArteAzul-Atelier

 

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A tasca do Tinho

Ao contrário do vizinho, a tasca do Tinho

Apagaram-se já algumas luzes do céu e uma nesga de lua espreita pelo postigo, só, para além da porta da tasca do Faustino, tasca não, o único restaurante fino da freguesia, conforme alguns fazem crer. Permanece ainda o cheiro a alho, retardado nas sobras espalhadas junto às cascas por cima da banca e no fundo de duas grandes malgas lubrificadas de azeite. Da lareira restam umas lascas de lenha mal queimada envoltas por grande quantidade de cinza com pequenas cavidades onde estrategicamente se alojaram inúmeros caroços de azeitonas. No mesmo espaço da cozinha, configura-se a sala de jantar com uma mesa de madeira tosca, mesmo ao centro, acompanhada à distância de meia dúzia de bancos e duas ou três cadeiras mal amanhadas. A pouca luminosidade existente no exótico lugar fica a dever-se ao satélite e ao candeeiro de canto com duas lâmpadas, filamento derretido numa delas, lá colocada pelos vistos na noite anterior só para marcar presença, e a outra coberta de substancial camada de gordura que, mesmo assim, deixa trespassar alguma claridade, entranhando-se pelas paredes em manchas de cores numa estrutura caótica, resultando, no entanto, algum encanto e uma certa compostura artística.
Ao contrário do restaurante do vizinho, de toda a comida se faz, ali no Faustino, ou Tinho como gostam chamar-lhe certos clientes, sabe-se lá porquê, de boina pendida, perdida para uma das sobrancelhas, desses que afirmam a pés juntos guiar de Vila Real a Amarante em vinte minutos, orgulhosos e empinados, pelo túnel do Marão, claro, ignorantes por via dos marcadores do tempo que adquiriram no concertador de relógios de cordas da Bila. Sim, pois ali vamos à Bila, seria pior se fôssemos a outro lado qualquer. Pede-se desculpa pelas frontalidades, mas assim se referiu Nanico quando recorda que um deles, parados por ali aos sábados, dia do apetitoso bacalhau na brasa – sim este é mesmo da brasa, de tições convenientemente incandescentes, do bom, lombudo, um regalo –, se desmonta de fanfarrices no treino que leva contra malas policiais de registo de fugazes agilidades.

Fisgas de Ermelo - monumento natural

Abismo multifacetado

Este lugar é de facto um monumento natural em que paira no ar uma atmosfera de religiosidade que advém, não só da grandeza, mas também do inesperado.

Sob a música de fundo, que é o troar, neste abismo multifacetado, das águas invernais, contempla-se com devoção este imenso arco quartzítico, de um «gótico» natural, que forças tectónicas fracturaram e que as águas vão, pouco a pouco, cortando.

Arq.º Robert de Moura

in Ficha Técnica - Edição da Câmara Municipal de Mondim de Basto

Coordenação: Alfredo Pinto Coelho

Selecção de textos: Luís Jales de Oliveira, Alfredo Pinto Coelho

Fotografia: Manuel Matos, Nélson Palmeira, Carlos Costa

O Editorial mais difícil de escrever

Editorial, por Barroso da Fonte

JORNAL DOS POETAS & TROVADORES

Escrevo esta crónica nostálgica no dia de Natal de 2015. Talvez seja o editorial mais desolado de quase 63 anos de jornalismo. Iniciei-me em 24 de Janeiro de 1953. Raros foram os dias em que não escrevi, fosse o que fosse. Quase sempre para reivindicar justiça, solidariedade e paz social. De pouco me valeu, pela vida fora, este frémito que os poderosos usam e abusam para espezinhar, cada vez mais os indefesos, os inválidos e os famintos.

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São Martinho

bispo, papa, rapa

São Martinho, bispo; São Martinho, papa; S. Martinho rapa.

Pelo Santo Eugénio, castanhas na fogueira, lenha na lareira e as ovelhas na cortelheira.

(Descobrir qual o dia de Santo Eugénio - porque há três santos com este nome - levou-me a pedir ajuda à diocese de Braga, a outras do país, de Espanha e até a amigos em Roma. Perante o insucesso não desisti e descobri por mim. O leitor pode ver o dia certo num rodapé do meu livro «Memórias da Maria Castanha»).

Fui pedir ao vizinho envergonhei-me, vim para casa e remediei-me.

A terra que nos alimenta

O eterno retorno à terra que nos alimenta

Os políticos que nos administram a nível local, regional ou nacional costumam assinalar com entrevistas, inaugurações ou visitas surpresa, essa etapa percorrida. Em tempo de vacas gordas promoviam-se jornadas partidárias, que davam ânimo ao ego dos governantes. Agora que as vacas leiteiras da Europa, têm as tetas a secar, limitam-se os interessados nessa prospecção, a usar os meios mediáticos de que dispõem para garantirem aos quatro ventos, que a vida continua, à boa imagem daquela ideia feliz que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche ensaiou no aforismo 341 de A Gaia Ciência. De acordo com a teoria desse aforismo: «a eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez». E cada um de nós terá de refazer o trajecto, como essa ampulheta impõe. 

Ocorre-me recorrer a Nietzshe que nos remete para a obra «Assim falou Zaratustra», quando leio o texto da entrevista que o Presidente da Câmara de Montalegre, Orlando Alves, difundiu através do Gabinete de Imprensa da autarquia, na semana em que completou um ano de mandato.

Nesta crónica o jornalista joga em «casa». E se tem gosto em pugnar por Trás-os-Montes e pelos Transmontanos, com grande júbilo, louva esta entrevista do autarca do seu concelho, onde o autarca  relata o que fez e o que deseja fazer, nos três anos que lhe restam de mandato. Assistimos  ao acto de posse. Nesse discurso Orlando Alves afirmou que tudo iria fazer para promover o «retorno à terra». Se saúdo este retorno dos Barrosões à terra e se recordo a simbologia de Nietzsche a um político que reconhece o mito das origens telúricas, como sobrevivência possível de um Povo, ancestralmente fustigado pelo desprezo de todas as crises, é porque esse povo foi enganado pelo el-dourado europeu. Portugal, mercê de um amadorismo primário de governantes sem escrúpulos, matou a galinha dos ovos que o manteve vivo, pelos tempos fora. Sempre foi um país pobre, mas de alma grande. Qualquer esfomeado de alimentação ligth, vivia confortado pelos produtos da terra. Havia sempre pão, caldo, batatas e grelos para uma sobrevivência condigna. A ilusão das promessas sem nexo, a ganância pelo que pertence aos outros e o incontrolado assalto ao dinheiro fácil, «mataram» a agricultura básica. Quem vivia daquilo que a terra dava, só dependente do braço humano, empobreceu. Pobreza gera pobreza. E o país que tudo dava, virou terra de ninguém.

Desta certeza nenhum português duvida, porque a fatalidade mora em cada família que foi proibida de trabalhar o que herdara. Perdeu a herança, perdeu o que a terra produzia e perdeu a dignidade de comer o que trabalhava. Este calamitoso crime político  gerou um clima de subserviência generalizada. Os pobres ficaram muito mais pobres. Os intermediários que sempre viveram do mal dos outros, parasitaram dos sacrifícios de quem sempre foi sério e nunca deixou de merecer o que consumia. Os ricos proliferaram, como as moscas que nascem de um momento para o outro, nos restos das comidas vomitadas pela burguesia incontrolada.

Esta crise ultrapassou todas as crises de que há memória. Porque no passado conheciam-se e eram severamente punidos os seus algozes. Desta vez não é possível punir os criminosos porque em todas as classes sociais existem cadastrados, deixando de haver classes virgens e intocáveis.

O país real, aquele do qual provenho e com o qual me identifico, vive e sobrevive este holocausto.

No balanço que Orlando Alves faz aos leitores, afirma: «considero criminoso que haja tanta terra arável, abandonada e onde muita dela já nem sabe quem são os seus proprietários. Uma situação de «pelintrice» vergonhosa. Ninguém se preocupa em produzir aquilo que as bocas dos portugueses precisam para sobreviver. Não há outra forma que não seja virarmo-nos para os «tesouros» que estão escondidos, dentro do nosso espaço: potencial agrícola e florestal».

Isto que o autarca-mor de Montalegre diz da sua jurisdição municipal, penso que paira no espírito de todos os autarcas do país e, em especial, da região norte que vive, a 90%, daquilo que o campo dá.  Sempre foi este o palco de sobrevivência das submissas  populações do país real, do país que produz, mesmo em cima dos penedos, o pão que come. Assentou neste binómio (terra e floresta) a promessa eleitoral. Ao fim do primeiro ano, «este retorno à terra» centrou-se na batata de semente e na aposta nos pequenos ruminantes. «Prometi apoio a todos os empresários que decidissem investir nos parques industriais de Montalegre e Salto. Nunca ninguém apareceu, nem aqui nem, estou certo, em nenhuma zona do interior do país». Pudera! Gato escaldado de água fria tem medo, dizemos nós. Mesmo assim regozija-se Orlando Alves: «uma das primeiras coisas que fiz foi acabar com a vergonha do ordenado mínimo nacional: «retirar os funcionários da Câmara da indignidade e da vergonha de levarem para casa, 400 e poucos euros. Logo de uma assentada foram todos aumentados. Uns 50, outros 70, outro 80 e outros até 200 e tal euros!»...

Foram aplicados mais de 100 mil euros no fomento da actividade desportiva. Um dos dossiers que marcou este ano de mandato foi a estrada Montalegre-Chaves. A meio  (continua) erguida a Ponte da Assureira que classificou como um monumento ao desprezo. Outra promessa cumprida consistiu em levar a volta a Portugal em bicicleta à Serra do Larouco. Decisões polémicas, discutíveis, mas inseridas no contexto da campanha eleitoral. Tem a palavra a oposição.